A grande Centauro

Por Sergio Agra

 

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…sentidas e as cicatrizes de cada relação fracassada são marcas distantes…

 

Paz! Qual seria o caminho que me levaria à paz? Passam das três horas desta madrugada de intensa neblina. Redobro minha atenção ao volante. Das estradas que me levam a Santherminia, nenhuma outra tem a força, o encantamento e a magia da velha estrada de ferro, por onde a “Maria Fumaça” outrora rompia o verde das campinas, vales e planícies. Saía-se de Porto Alegre ao entardecer e chegava-se pela manhã já alta do dia seguinte. Mais tarde, o Minuano; rápido, confortável, sem o romantismo e o espírito de aventura que somente as velhas locomotivas a vapor sabiam conceder. Não conheci os Trens Húngaros; nessa época, não viajava com tanta frequência a Santherminia. Assim mesmo, a rodovia, agora deserta, me passa, através do seu silêncio e do negrume de suas retas asfaltadas que parecem não ter fim, o suave sentimento de quietude. A imprescindível quietude, talvez, que me fora negada por Pandora   para trabalhar ou estudar;  ela não se satisfazia em  apenas mudar a mobília;  reformava nosso apartamento duas vezes ao ano. Ela sempre tinha um argumento, “Amo fazer da minha casa uma cambiante constelação”. Eu me esforçava para mostrar-lhe a realidade dos fatos, “O meu saldo bancário está longe de ser infinito como o teu Universo estrelado”. A réplica era outro ponto forte de Pandora, “Não aprecias os vinhos envelhecidos, teu cachimbo nas noites frias de inverno?”. Por outro lado, eu mostrava-lhe a lógica, “Os meus pequenos prazeres não se comparam aos teus caprichos”. Transigir jamais fora verbo a ser conjugado por Pandora, “Não, de forma alguma! Mas não podemos deixar transparecer aos amigos que ainda somos “pouca coisa”. Cresce, pelo amor de Deus, cresce!”. Os embates forenses também me ensinaram a força das palavras, “Não é por aí que se encontra o crescimento do ser humano”. Ela fazia uso da ironia como poucos, “Deixa de ser tolo! A humanidade divide-se em dois polos: nobreza e criadagem. Escolhe onde vais ficar!”. Tentei contemporizar, ”Nem tanto ao mar, tampouco à terra. Quero estar em paz e ser feliz contigo. É o que me basta!”. Pandora era imbatível, “Felicidade! Ora, felicidade é isto, também: ambição! Sonhar alto, um sonho que alcance o imprevisível: a Ursa Maior, as Três Marias, a Aldebaran, as estrelas todas. A vida burguesa superficial é mortal… é visível demais, vê-se o final demasiadamente claro e todos os atos que levam até lá.” Eu não acreditava que as palavras dela tivessem alguma lógica, “Estás delirando, Pandora, como tu mesma o disseste, é um sonho! Não tens os pés no chão!”. Por mais que me esforçasse no contrário, ela insistia em “viajar”, “Não, não estou delirando. Sonhar é nutrirmos nossas vidas. Muitas vezes me pergunto: se nossos sonhos estão mais próximos de quem nós somos do que a racionalidade ou os sentimentos? A própria história nos mostra isso”; –Pandora enumerava – “Cristo morreu na cruz, mas o cristianismo se transformou na maior força espiritual do mundo. Galileu Galilei cedeu diante da Inquisição, mas a Terra continuou girando ao redor do sol. Anne Frank morreu, mas Israel ressurgiu da cinza dos tempos.” A discussão tomava rumos que eu próprio desconhecia, “Eles não eram apenas sonhadores, Pandora! Eram guerreiros, lutadores. E a cada ato de luta corresponde um passo da vitória.” Agora transitava em terrenos que não me eram estranhos, “E Don Quixote?” – contra-argumentei – O impossível sonho!…”. Pandora provocava, “E tu? Tua tese? A novela que, um dia, dizes, irás escrever, elas não são um sonho palpável?”. Eu conhecia os meus limites, “Isto tudo é uma luta!”. Pandora então apanhou os livros, as chaves do carro e dispôs-se a sair, dando a impressão de que a conversa terminara ali. Eu estava enganado. Fora de Pandora a última palavra, “Toda a luta é movida por um sonho…”. E fechou a porta atrás de si.

 

Pandora fora aprovada no concurso para docente no Departamento de Astronomia do Instituto de Física da Universidade Federal. Nomeada, um mês depois, convidou os novos colegas para um jantar em nossa casa.

Naquela noite eu retornava de uma conferência na Faculdade de Direito de Campinas. O voo atrasara devido a um acidente na pista do Aeroporto de Congonhas. Uma aeronave, ao aterrissar, não revertera em tempo os motores e, por pouco, deixou de estacionar na Avenida Rubem Berta. Os voos foram transferidos para o Aeroporto Internacional de Viracopos.

Passavam poucos minutos das dez da noite. Colarinho desfeito, paletó sobre o braço, cabelos desgrenhados, ansioso por um bom banho e degustar um generoso cabernet, eis a surpresa: antes, sequer, que eu girasse a chave no miolo da fechadura do apartamento, um homem alto, de porte elegante, o leve e discreto perfume da colônia, abriu a porta, estendeu as mãos, fazendo menção de apanhar a pasta e o paletó dizendo, “Doutor, por favor…”. Pandora contratara para servir o jantar nada menos do que um mordomo.

Sou, por natureza, um homem afetivo. O mesmo não  posso afirmar com relação à Pandora. Nunca, em momento algum, dela partiu de forma espontânea um gesto de verdadeira  ternura. Encontrei, ao acaso, dentro do livro A Grande Centauro – Esta Desconhecida, numa folha solta, com sua letra graúda e firme, este texto:

 

“…Porém, a raiva maior é contigo mesmo, por não poderes ser menos passional. Ser mais razão, poder manipular tuas emoções. Sim, somos a geração dos descartáveis! As perdas há muito deixaram de ser sentidas e as cicatrizes de cada relação fracassada são marcas distantes. Por que insistirmos na pieguice do amor? Dizem que amar é desfrutar com alguém das coisas que este alguém curte. Entretanto, nenhum poeta afirmou que amar é também aniquilar com todos os limites de paciência do parceiro. Quantos versos, quantas canções e hinos ao amor para, mais tarde, descobrirmos que hoje somos a geração dos descartáveis? Virar a mesa? Afundar o barco? Ir de encontro a todas as ideias até então defendidas? Por que não? Acaso teremos o eterno compromisso  de sermos fiéis àquelas que foram nossas primeiras verdades? Um dia, quem sabe, hei de trocar o violino, o piano e a flauta doce pelo som enlouquecido de tambores e cuícas. Porei fogo na cozinha, nos carpetes, no apartamento inteiro. Porei fogo no circo. Hei de espantar, para todo o sempre, os bruxos, os fantasmas e os duendes que invadiram o meu espaço. Então, me enxergarei refletida na face convexa de uma colher de prata como uma outra mulher, uma nova mulher…”.

 

Do alto da colina, diviso as primeiras luzes da cidade ainda adormecida.

Sergio Agra é escritor e advogado radicado em Capao da Canoa – RS, desde 2005. Uma honra ter um novo amigo enriquecendo nosso blog.

Uma mulher versátil

Por Maryur Tedesco Silber

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Em 26 de março de 1772 era gerada pela ação coletiva de alguns casais açorianos uma singela e humilde menina que foi crescendo acolhedora e faceira, adolesceu como debutante sonhadora às margens do Guaíba para se transformar numa mulher madura, que teima em ser bela apesar de não receber o que merece nem de seus governantes, nem de seus filhos que não zelam pela terra onde nasceram. Hoje, uma mulher versátil, culta, rica nas suas variadas manifestações artísticas, engajada em política e nos movimentos sociais, apaixonada por futebol, veste-se sempre de vermelho ou azul e sua pujança se estende desde o entorno ao centro da cidade alcançando os bairros social e financeiramente privilegiados. É uma mulher que se reinventa sempre, preservando em cada bairro seu “modus vivendi” e características ancestrais.

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Na sua mais bela estação: A primavera é quando depois, do rigoroso inverno, saímos embriagados de luz com muito mais disposição para curtí-la sob um novo olhar. Quase um olhar de turista e nos surpreendemos com as cores de suas roupagens, com a sinfonia dos pássaros e o sussurrar do vento ao entardecer. É neste embalo que, tal uma noiva, ela começa a preparação para seu máximo evento literário: A Feira do Livro, orgulho de suas tradições culturais. Então redescobrir Porto Alegre é puro prazer, encantamento e magia. Basta saber Olhar! Basta saber Sentir! É nossa “mui leal e valerosa” Cidade-Sorriso prosseguindo altaneira na caminhada em busca do futuro, construindo sempre a sua história. Aqui nasci e cresci, vi meus filhos e netos nascerem, amei e fui amada, ganhei e perdi, às vezes fui feliz, às vezes sofri e jamais a trocaria por nenhuma outra.

Maryur Tedesco Silber é colorada, pedagoga, terapeuta Reiki e Floral, e hoje curte as amenidades familiares, afetivas e culturais. Aos sabados abre seu coração no blog da Maria Lucia Solla

 

Concerto Andaluz – VIII

Por Sergio Agra

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Andante con dolore

 

 

Hermes, voz trêmula pela emoção, lê o bilhete em voz baixa:

 

Quando você estiver lendo estas palavras, estarei distante de Porto Alegre, do Brasil, nem eu própria sei. A única certeza que agora tenho é a de que não mais nos veremos. Saio de tua vida para entrar definitivamente no “capítulo LXVIII” que Hector decidir. A vida de meu marido é uma segunda parte incógnita; se lida com gente “barra pesada”. Creio que a ária que eu ouvia na noite de chegada repentina de Hector despertou-lhe o mais selvagem dos instintos: o ciúme, a desconfiança. Sem nada dizer, rasgou-me a túnica de seda e possuiu-me com a violência de um animal. Estrangulou-me quase à asfixia, rompendo a gargantilha e despregando a pedra de diamante. No meio da trepada, disse coisas que me assustaram: “Vais sentir o fogo dos infernos, como arde a lambida desse fogo na pira do sacrifício”. Era um fogo amarelo azulado, que não queima a macega seca nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagando… e quando um menos se espera, aparece outra vez, do mesmo jeito! Depois, pela primeira vez, penetrou-me o ânus. Não sei o que mais doía: as veias do pescoço que suas manoplas comprimiam ou a dor física e moral do estupro. Não te canses, “periquilho, que nunca a hás de ver nos dias da tua vida”. Hector ordena para que me apresse. Não tenho mais tempo. Faz uso de tua memória. Ela será fundamental. Angélica Elisa.”

 

Olhos esbugalhados, mãos trementes, Hermes, como autômato em curto circuito, dirige-se aos elevadores. A senhora, que ainda se encontra à soleira da porta do apartamento, diz-lhe alguma coisa. Ele não entende; estende a mão para abrir a porta do primeiro elevador. A vizinha grita. Ele parece já não mais ouvir…

 

…não adiantariam nada as rezas e promessas que eu fizesse aos santos mesmo porque eles  são uma  legião um exército e  assim  serão tantas as velas a serem acesas ou atearia fogo nas igrejas e terreiras e sufocaria  fiéis carolas e cambonos e imagens dos santos que há muito me encaram já não mais tão pétreos  a ponto de verterem lágrimas de sangue o fato é que a lua ia recém saindo e foi à boquinha da noite Angélica Elisa não atendeu ao telefone tampouco lembrou do nosso compromisso de jantar com John Lennon não sei como vou explicar ao cantante o inexplicável o injustificável o imperdoável o inglês viajou miles e miles de quilômetros para se deliciar com os bolinhos de bacalhau do Barcassa e a sopa de cebola do Tia Dulce e ficou dependurado no pincel por conta dos achaques temperamentais da cigana filha da puta a mãe que me perdoe não conheci a pobre da velha vou mesmo é partir prá outra a verdade é que Angélica Elisa me transportava para desconhecidas galáxias em sua desvairada e cálida nave de amor que outra não viajarei e saberei igual Hector Biscarra hoje tenho certeza viaja como viajava aquele bêbedo nas cordas do violão sebento e nas lembranças imorredouras do Noel Rosa outro porra louca embarquei na carroça do taura do Alegrete o tal de Blau fungando a cada acelerada e cuspindo adoidado reclamando do calor não dei trela me encheu o saco aí veio o Alípio sorriu à minha chegada o safado o que tinha de diferente aquele anel ordinário um diamante já havia visto a pedra quis me cobrar propina o malandro conheço a artimanha o diamante naquele anel vagabundo do Alípio não faz sentido reparo na placa de revisão fixada na porta do elevador social subimos no de serviço a velha vizinha de andar de Angélica Elisa e eu vai ter azar assim na puta que o pariu sempre que venho ou subo ou desço com essa velha me cumprimentou num boa taaaaarrrrdeeeee cínico debochado é ridícula com esse trajo verde limão com roxo vermelho e amarelo não tenho como evitar é o único que está funcionando  diz que Angélica Elisa não mora mais ali onde vi aquela pedra de diamante finjo gentilezas abro e seguro a porta para ela sair me diz que tem um bilhete de Angélica Elisa apanha o envelope no consolo do seu apartamento a letra inconfundível de Angélica Elisa a pedra o quê me faz lembrar seria necessário me jogar de cabeça nem que fosse na escuridão que vem do fundo do poço do elevador tonteio falta me o chão busco desesperadamente a saída ouço a bruaca da vizinha dizer alguma coisa o que faz o diamante no dedo seboso do Alípio só me falta a bruxa velha insinuar que além do bilhete estou levando algo de seu a Habanera Maria Callas Biscarra entendeu abro a porta do elevador social diamante agora sim ouço  a  velha  gritar  o pedido de socorro de Angélica Elisa “Capítulo LXVIII Segunda Parte” Don Quixote de La Mancha claro transparente gélido como as águas de um lago andino “assim o viver me mata pois que a morte me torna a dar a vida condição nunca ouvida a quem comigo vida e morte trata agora é tarde

 

A vizinha corre desesperada na direção de Hermes, Não! Esse, não! Pelo amor de deus, é o elevador estragado!

Hermes não sente dor alguma; apenas que os seus olhos pesam toneladas e que estava tomado por uma profunda sonolência. O mundo, apesar de tudo, parecia-lhe, naquele momento, estar em paz.

Sergio Agra é escritor e advogado radicado em Capao da Canoa – RS, desde 2005. Uma honra ter um novo amigo enriquecendo nosso blog.

Ela vai…e a vida continua.

Por Maryur Tedesco Silber

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Um belo filme francês este ” Ela vai”. Uma comédia dramática rica na transformação de várias vidas trazendo, ao final, a vitória da compreensão e do afeto sobre os conflitos e as diferenças pessoais, que  tanto precisamos neste mundo, hoje, tão egoísta e conturbado.

Catherine Deneuve, a sempre bela Catherine, assumindo a plenitude da maturidade sem disfarces interpreta uma mulher em crise existencial: econômica, afetiva e familiar. Vivendo relações conflituosas com a mãe e a filha, vendo a derrocada de seu pequeno restaurante no interior da França e abandonada pelo amante, ela foge, ela vai…

Vai sem saber prá onde ou prá que, tentando abandonar a rotina e seus problemas. Inicia uma tumultuada viagem durante a qual é obrigada a conduzir o neto, para ela, um desconhecido, até o avô paterno, tendo por cenário as belas paisagens do interior de França e o remoto objetivo de participar de um encontro de misses francesas do passado.

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Durante os acertos e desacertos da viagem avó e neto vão se descobrindo com bom humor apesar da pouca afetividade e todas suas diferenças.  Em meio a todos os percalços, a família: o avô sisudo, a avó desiludida, a filha incompreendida e a bisavó impertinente, acabam forçados a uma convivência, inicialmente, conturbada e, que graças a afetividade do pequeno Charlie, transformará as vidas de todos, suas escolhas, seus valores num verdadeiro encontro de amor, permitindo descobrir nas palavras dos protagonistas: – Que a vida continua!

Desnecessário dizer que adorei a trama, embora não sendo um grande filme francês é um delicado filme francês com, sobretudo, um final feliz, e finais felizes todos queremos e precisamos assistir.

Recomendo! Bons momentos com “Ela vai”

Maryur Tedesco Silber é colorada, pedagoga, terapeuta Reiki e Floral, e hoje curte as amenidades familiares, afetivas e culturais. Aos sabados abre seu coração no blog da Maria Lucia Solla

 

Concerto Andaluz – VII

Por Sergio Agra

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Andante con dolore

Com essas reminiscências, Hermes desce as escadarias da Igreja de Nossa Senhora das Dores, de onde ele vislumbra o pôr do sol na parte velha e melancólica de Porto Alegre. Uma tempestade se faz anunciar pros lados da margem oposta do Rio Guaíba. Novamente visão de assombrações varam-lhe os pensamentos. Na última tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe a Estrela D’alva, nessa última tarde também desabou uma chuvarada tremenda; foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou… e durou…

 No botequim, não longe dos portões da Igreja, há um telefone. Tenta, inutilmente, uma ligação. Numa das mesas, coberta por uma puída e engordurada toalha com desenhos em losangos brancos e vermelhos,  entre um copo e outro de canha, o homem, ao plangente violão, consola-se, “…Eu não mereço a comida que você pagou p’ra mim…” Os tristes versos da canção misturam-se aos de uma rapsódia que irrompe da alma de Hermes:

A cintilação da tarde terminal sucumbe às sombras primeiras da noite. Os botequins da cidade baixa acolhem os bêbados e cativos, quiméricos sonhadores e poetas, tementes ao açoite dos amores jamais vividos. Silenciosas testemunhas, os letreiros coloridos dos cabarés da farrapos sabem da busca de cada um. Filhotes da “redentora” apontam a solução antropofágica para a erradicação da pobreza e da fome no Brasil (concordemos, contando até mil!!!) decretando a sina da prostituta ainda menina, da professora, do funcionário público, da concubina. Contemplam, complacentes, o lucro e o riso desenfreados dos banqueiros, corruptos e estelionatários. Livre é a concussão. A lei – como prêmio de consolação – acaricia o injustiçado fruto do estupro – indesejado –, anencéfalo – inquestionável monstruosidade –, a fome, a carência, a falcatrua, a desilusão. Casas e arranha-céus flambados, janelas de algodões-doces: um “araponga” nos telhados, um sequestrador de tocaia. Cortes, cicatrizes, sulco de arados. O Theatro são Pedro vomita na praça da matriz a plateia da última sessão. Desce o pano. Eu, the clown, transfiguro-me em marginal, vago sem rumo para (des)nutrir uma plateia que não ri, não chora, não esboça um sinal de vida sequer. Silêncio no proscênio. Amanhã, tudo há de se repetir, ao toque de um botão no painel central. No rio, oferendas à Mãe Oxum, divino o manto dourado. Da garganta o canto; esperança em cada oração. Com o firmamento carente de astros e estrelas, busco, incessante, a voz suave que embalou meus sonhos na praia em que a saudade ainda faz morada. Quero ter os pés-descalços sobre espumas e a areia a envolver, novamente, braços e pernas e bocas. De repente, me vejo sozinho, cantando para desertos de pedra e espinho. Surdos. Mudos. O amanhecer corrompe-me as retinas, me resseca os lábios e Impõe-me mudar a realidade. Não mais só, não mais sem ter aonde ir. Fazendo-me ver, Fazendo-me sentir, Fazendo-me valer, Fazendo-me ouvir, olvidando minha dor. Por favor, não se esqueça de mim, amante e sempiterno sonhador…

Hermes desiste da chamada. Recoloca com violência o fone no descanso e dirige-se ao ponto de táxi. Embarca num Volkswagen caindo aos pedaços. O rádio do carro, o volume ligado no máximo, transmite uma milonga. Hermes mostra-se irritado, Toca prá 24 de outubro. O motorista dá uma estrepitosa fungada, cospe pela janela do carro e, sem qualquer constrangimento, desenrola a ladainha, Baita calor hoje, n’é patrício? Lembra um verão da minha infância. E, sem pedir licença, já se faz conhecer, Patrício apresento-me: sou o Blau, do Alegrete. O taxista desenrola o novelo de suas façanhas, Escuite: eu tenho cruzado o nosso estado em caprichoso ziguezigue. Já senti a ardentia das areias… Hermes sequer ouve o que o motorista fala. Pensa em apenas ter notícias de Angélica Elisa, que não respondeu a nenhum dos seus telefonemas e tampouco comparecera às aulas do cursinho nos últimos dez dias. O táxi chega ao edifício da professora e o alegretense ainda perorava, …Subi aos extremos do Passo Fundo, deambulei para os cumes da Lagoa Vermelha…

 Ao cruzar os jardins do condomínio, Hermes percebe o porteiro Alípio. O serviçal vem ao seu encontro, mão direita estendida. No dedo anular reluz o anel barato, com uma pedra de diamante de raríssima beleza incrustada no centro, o que não fazia nexo algum com a armação ordinária. Alípio, obsequioso, deixa transparecer no semblante a intenção de quem vai pedir a propina, parece querer dizer-lhe alguma coisa, Sêo Hermes… Hermes, evitando qualquer tentativa de diálogo, Hoje, não, Alípio, hoje, não! Vamos deixar prá outra hora. No saguão do prédio, Hermes observa que apenas o elevador de serviço está funcionando; o social encontra-se em revisão. Embarca com a vizinha do apartamento ao lado do de Angélica Elisa. A mulher, perto dos setenta anos, veste um conjunto de malha de ginástica verde-limão, com destaques em roxo, vermelho e amarelo. Sardônica, encompridando as sílabas, ela o saúda, Boa taaaaaaaaaaaaaaarde. Hermes, apesar do desejo de esganar a velha, responde ao cumprimento, Boa tarde. A mulher conta-lhe a novidade, Angélica não mora mais aqui no prédio, o Alípio não lhe falou? Hermes, atônito, ante o inesperado da notícia, não sabe o que dizer, O quê?… Desde quando?… Para onde ela foi?… No sétimo andar o elevador estaciona. Hermes se adianta à senhora, segura a porta para que ela saia. A vizinha dirige-se ao seu apartamento e, num tom mais formal, demonstra preocupação, Não sei, já fez uma semana que ela partiu. Abre a porta do apartamento e, apontando para o aparador, apanha um envelope azul, Antes ela deixou este envelope endereçado a você. Pediu-me que o despachasse via Correios, só que não encontrei tempo para ir à cidade. Estende o envelope ao visitante, Aqui está. Hermes reconhece a letra da amante. A vizinha complementa, Ela não pôde me dizer muita coisa, o Biscarra estava próximo, despachando as malas pelo elevador de serviço. A mulher detalha com precisão o estado de ânimo da ex-vizinha:

– Angélica estava muito abatida, usava óculos escuros. Percebi vergões em volta do seu pescoço; a echarpe não conseguiu disfarçar. Perguntei se estavam de mudanças ou era apenas uma viagem. Respondeu-me com evasivas. Acho que não fazia questão de dizer aonde iam. Depois, eu soube que era mudança, mesmo. E prá bem longe!

Hermes, voz trêmula pela emoção, lê o bilhete em voz baixa:

Sergio Agra é escritor e advogado radicado em Capao da Canoa – RS, desde 2005. Uma honra ter um novo amigo enriquecendo nosso blog.

 

Roda de Leitura no Templo do Oriente.

Por Maryur Tedesco Silber

 

Roda de leitura

Uma feliz combinação.

 

Laura Rangel, psico-pedagoga e apaixonada por literatura, responsável pela Roda de Leitura e Brysa Mahaila(Catia Ribas), mestra em cultura árabe pela Feevale, especializada em dança do ventre, uniram seus conhecimentos e esforços, no Café Templo do Oriente oportunizando, na última semana, a um público  interessado em literatura e arte, uma noite das mais agradáveis.

O ambiente que já há algum tempo tem abrigado manifestações culturais: exposições de arte, debates literários e, principalmente, espetáculos de dança do ventre foi ponto para este primeiro encontro da Roda em 2014.

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Um encontro rico e interessante. Laura atingiu seu objetivo de incentivar a autoria feminina, especialmente, a das mulheres gaúchas, com a presença de três autoras que proporcionaram com seus textos, momentos de debate e troca enriquecedora de idéias. A noite, numa homenagem ao espaço, foi iniciada com a Leitura de trechos de Sherazade, estabelecendo a analogia entre a influência remota dos árabes, em especial na fronteira gaúcha, sobre nossos hábitos e costumes.

Prosseguiu com a leitura de poesias de ótima qualidade de Carmen Presoto, representada por Ive Soares, também poetisa sensível e delicada em sua apresentação. E nos brindando com trechos de seu excelente romance: “Quarentena”, uma viagem no tempo e na vida das mulheres do pampa através de revoluções, encontros e desencontros tivemos o prazer de ouvir Vera Molina escritora uruguaianense, burilada nas Oficinas de Assis Brasil, que boas escritoras nascem feitas, só é preciso burilá-las. Encerradas as apresentações literárias com a poesia forte e sofrida da estreante Isabel Santos, comovente em sua leitura e interpretação, assistimos ainda uma belíssima interpretação de dança do ventre, símbolo do Café, por uma das alunas da escola de dança árabe: Templo do Oriente.

Vivemos bons e descontraídos momentos, obrigada Laura e Brysa, valeu a parceria!

Maryur Tedesco Silber é colorada, pedagoga, terapeuta Reiki e Floral, e hoje curte as amenidades familiares, afetivas e culturais. Aos sabados abre seu coração no blog da Maria Lucia Solla

Concerto Andaluz – VI

Por Sergio Agra

 

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Alegro com spirito

Naquela noite Hermes não dormiu. Lendas de Simões Lopes Neto de assombrações, a mboitatá, que ele ouvira ainda menino nas narrativas de major Taurino, assaltaram—lhe os pensamentos. Os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados, horas e horas, olhando, sem ver as brasas vermelhas do… as brasas somente, porque as faíscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes. Sons longínquos de uma madrugada que se anunciava como interminável invadiram o quarto. A cabeça dava voltas sobre o travesseiro na busca desesperada do sono e, quem sabe, do esquecimento do episódio das últimas horas. No meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho vivente, furava o ar; era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo que devia vir e que tardava tanto já… Os lençóis amarfanhados jaziam sobre o carpete. O louco desejo de sentir braços, pernas e boca a envolver braços, pernas e boca de um outro corpo – o corpo de Angélica Elisa – num só corpo, diluiu-se como a bruma diáfana se deixa corromper pela luz esmaecida do amanhecer e revelou Hermes agora errante pelas ruas da cidade ainda dormente. Uma nuvem densa e baixa envolvia os caminhos, os prédios, os automóveis, as praças, os jardins, os monumentos e os últimos bêbedos regurgitados pelos botequins. Na vitrina vazia, o manequim de mulher: nu, o bico róseo mutilado dos seios túrgidos deixava transparecer uma resina coagulada (o sangue dos títeres?),  o braço decepado e o olho vazado. Estilhaços de vidro. O som roufenho do gramofone na casa de carnes: Cauby Peixoto, desvairado, entoava um tango ainda não conhecido, Balada para un Loco. A ex-socialite, em andrajos, catava farelos de rosquinha de broa entre as cadeiras de um cinema em ruínas. Na pequena praça, o circo a céu aberto. No picadeiro, o rabino – a barba ainda gordurosa e com vestígios do carré de porco da noite anterior – contava anedotas sobre Torquemada e as fogueiras da Inquisição. Nas arquibancadas, leões circunspetos ouviam o semita, desdenhando os rugidos da anã numa jaula próxima. Sob a Mandala o palhaço partia um cálice de cristal de e espargia azeite de dendê no casal de pretos velhos ajoelhado à sua frente. Gigantescos nacos de rosbife enfeitavam a cabina telefônica. Vindo dos lados da Catedral, o homem incrédulo, histriônico, chapéu desabado, tentava varar a  nuvem abissal a bordo do aeroplano cuneiforme. A boneca antiga de louça, o olhar mortiço, equilibrava-se nos carris da estrada de ferro desativada, murmurando em tom plangente “…tudo está vermelho. Hoje tudo é vermelho… E agora, mamãe?…”. Casais, em sodomia, gemiam, arfantes e lascivos, nas sacadas do sobrado da caftina Gilda Martinho. Hermes teve a certeza de escutar, vindo do interior dos postes de iluminação, o riso demoníaco de Biscarra. No foyer do Theatro o Menino chorava pela Incompreensão. Um castelo nos pampas era envolto por perversas línguas de fogo. Em sua fuga, Hermes invadiu templos, terreiras e sinagogas, varou os porões pútridos dos quartéis, transpôs as trincheiras, ignorou as granadas e os obuses, rompeu o cerco do pelotão de choque, atalhou pelos sombrios corredores dos manicômios, das morgues e, no cimo da montanha, de onde mirou por vez primeira a cidade a seus pés, alcançou o arrampadouro de planadores. Encetou a corrida e, já em meio à plataforma, fechou os olhos e,  naquele turbilhão, permitiu-se mansamente planar no vazio do incompreensível, diretamente para as profundezas de um inusitado oceano.

Quinze dias após a madrugada de pesadelos, Hermes ainda se lembraria com terror a chegada, sem qualquer aviso prévio, de Hector Biscarra. O colombiano acionara o interfone do apartamento do sétimo andar. Ato contínuo, Angélica Elisa jogou sobre o seu corpo nu uma belíssima e alva túnica de seda com trancelins dourados e correu para a suíte onde ele, espavorido, vestia, ao mesmo tempo, cuecas e calças. A mulher ordenou ao jovem amante que se aligeirasse e a seguisse até a área de serviço. Ali, próxima ao parapeito, apontou-lhe a chaminé do incinerador, rente à parede externa do prédio de apartamentos. Instruiu-o para que descesse pelos degraus de ferro que serviam de apoio à limpeza do conduto e alcançasse o pátio do estacionamento. Hermes recordaria, ainda,  ter escutado Angélica Elisa ligar a vitrola. Maria Callas gorjeava a sensual ária Habanera.

Sergio Agra é escritor e advogado radicado em Capao da Canoa – RS, desde 2005. Uma honra ter um novo amigo enriquecendo nosso blog.

Concerto Andaluz – V

Por Sergio Agra

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Alegro agitato

 

 

Hector Biscarra disparou o seu gargalhar bucaneiro e fechou a mala estendida sobre a cama da sórdida pensão na cidade de Porto Velho. Os negócios saíram de acordo com o planejado. Com a mercadoria embarcada e os agentes aduaneiros regiamente “recompensados”, ganhara, assim, quase três dias do que previra para esta viagem. Sua mulher, assim ele pensava, certamente ficaria surpresa com a volta antecipada. Cerrou os olhos, aspirou profundamente, dilatando as narinas, como se pudesse sentir, bem à sua frente, o cheiro do sexo de Angélica Elisa. Era madrugada, ainda, quando, no velho Studebacker de aluguel, cruzou os becos empoeirados da periferia da capital do Estado de Rondônia.

Passava da meia-noite quando Biscarra desembarcou, sob uma chuva miúda, no Aeroporto  Salgado Filho fortemente vigiado pela Polícia do Exército. O mundo já não era mais o mesmo desde a Primavera de Paris. Ali fora o estopim de tudo. O colombiano ignorou o aparato, desde que a milicada não metesse o bedelho nos seus negócios e se preocupasse apenas com os subversivos, estava pouco se lixando. Sacudiu os ombros desdenhosamente e dirigiu-se ao ponto de táxi. Instruiu ao motorista para que seguisse, sem qualquer pressa, para a Avenida 24 de Outubro. Era-lhe agradável o ruído da chuva de encontro à lataria do automóvel. Olhar o reflexo dos letreiros luminosos de néon no asfalto molhado acalmava-lhe as tensões.

Chegando ao prédio onde morava, percebeu irritado que  as chaves haviam ficado nos bolsos de algum paletó agora embalado. Alípio, o porteiro do condomínio, não se encontrava na portaria. Deve estar com uma vadia no seu pequeno apartamento, pensou o viajante. Acionou o interfone de seu próprio apartamento.

Simulada, Angélica Elisa, ao ouvir a voz do marido, esboçou a mais feliz das surpresas. Ato contínuo, ela jogou sobre o corpo nu – onde apenas se vislumbrava um precioso solitário de diamante incrustado à delicada gargantilha de ouro a cingir-lhe o pescoço – uma belíssima túnica de seda branca com trancelins dourados e correu para a suíte onde Hermes, assustado, vestia, ao mesmo tempo, cuecas e calças. Ordenou para que ele se aligeirasse e a seguisse até a área de serviço. Ali, apontou-lhe, rente à parede externa do edifício, a chaminé do incinerador. Descesse pelos estreitos degraus de ferro que serviam de apoio para a limpeza do conduto, alcançaria o estacionamento. Hermes custou a acreditar que a amante falasse sério. Aterrorizado mirou os sete pavimentos que o separavam do solo. Ela foi taxativa, Ou você foge pelo tubo do incinerador ou se defronta com o meu marido. Hermes escalou o parapeito da área de serviço e iniciou a descida. O rapaz conhecia muito bem a vida pregressa do colombiano.

Ao entrar no apartamento, Hector Biscarra foi recebido por uma belíssima e surpreendentemente lasciva Angélica Elisa. Na vitrola estereofônica, Maria Callas gorjeava a Habanera, da ópera Carmen, de Bizet.

Sergio Agra é escritor e advogado radicado em Capao da Canoa – RS, desde 2005. Uma honra ter um novo amigo enriquecendo nosso blog.

De amigos, conhecidos e afins

 

 

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Vivemos vidas diferentes mesmo sendo feitos da mesma substância, mas com toda diferença cada vida merece um olhar generoso, por respeito à vida. Não gostamos de todo mundo, e cada um dá um nome para isso.

 

Eu prefiro comparar pessoas com alimentos. Uns caem bem, outros caem mal, como feijão do dia-a-dia e feijoada com tudo o que é cacareco dentro.

 

Tem gente que você não cansa de gostar e não pode viver sem, como a água. Dá para ver todo dia, combina com tudo, se mistura com facilidade e quando está longe faz uma falta danada!

 

Outras, dá para degustar uma vez por semana, e já está de bom tamanho. Tem as que pesam, difíceis de digerir, e só descem com muita água. Tem aquelas, feito peru, que só em dia de festa, e nos dias seguintes, até desgostar o paladar,

 

Tem as tão raras e especiais, que são saboreadas feito trufas brancas, ovas de peixe voador, lagosta com molho de manteiga temperada, como preparava minha sogra, a dona Ruth, que é rara e deliciosa como ninguém, e só faz bem.

 

E, é claro, tem as que não dá nem para passar o dedo e lamber, que causam uma alergia de deixar o cidadão de cama, ou levá-lo ao hospital. Isso se não matar. Gente venenosa, de uma forma diferente para cada um, porque alergia é pessoal, e não dá para generalizar.

 

Gosto e alergia não se discutem, mas é importante lembrar que dieta não se faz só na mesa. A principal é a dos salões.

 

E a tua alimentação, como vai?

Concerto Andaluz – IV

Por Sergio Agra

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Intermezzo

 

…“não te canses, Periquilho, que nunca a hás de ver nos dias”…

 “A terra é azul!”. A frase do cosmonauta soviético Iuri Gagarin se perpetuou na memória dos homens. Porém, seria a retina de 1,2 bilhão de telespectadores a testemunha do impossível, vertiginoso momento em que um enorme vulto branco colocou seu pé esquerdo num chão fino e poroso. O astronauta americano Neil Armstrong tornou-se naquele instante, 20 de julho de 1969, o primeiro homem a pisar na lua e ver o nosso planeta de lá. Entre os que assistiram pela TV, não poucos foram dormir convencidos de que se tratava de uma ilusão, fruto da nova tecnologia. O salto da ciência fora grande demais para o imaginário humano.

O velho Setembrino da Guaiaca, caboclo geralmente de pouca fala, chegara a discursar, Chô, mico! Isto é ôtra côsa dessas novela lá da televisão. E arrematou, Já não chega essas água com açúcra prá mulherada fungá, que Deus me livre, agora qué fazê os macho acreditá que os homes tão pulano na lua? Venâncio, pacientemente ainda tentou explicar, É o progresso, Setembrino. E fez o velho empregado lembrar, Tu não começaste piá, na fazenda de meu avô, levando charque e feijão numa carroça? O caboclo coçava a cabeça, ainda um tanto incrédulo, Foi, Sêo Venâncio, foi isso assim! Venâncio puxou, ainda mais, pelas lembranças, Depois, com muita barbeiragem, eu me lembro, passaste a dirigir a camionete Dodge do papai. Encabulado, Setembrino da Guaiaca ensimesmava, Foi, Sêo Venâncio, mas o quié que isso tem a vê com a novela da lua? O patrão era paciente nas explicações, Muito Setembrino! A tecnologia avançou; do avião o homem pulou para o foguete tripulado e, com este, chegou até a lua. Como bom e teimoso caboclo que era, Setembrino pôs fim à questão, Ô, Sêo Venâncio, que nada! Aquilo tudo que apareceu é de fingimento. É tudo de papelão, que nem na novela da Cabana do Pai Tomás. Até aquela areinha, que eles pegaro numa praia, é de mentirinha.

Quinze brasileiros, presos políticos, foram trocados pelo embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, sequestrado pelos grupos ALN e MR-8, na primeira ação terrorista do gênero no mundo. Seguiram para o México, sofreram a pena de banimento e somente seriam anistiados dez anos após. O presidente da República, marechal Arthur da Costa e Silva, adoentado, foi afastado do poder.  A Junta Militar – a quem o deputado Ulysses Guimarães chamaria de “os três patetas”, afastou o vice Pedro Aleixo e governou por dois meses, até a posse do general Emilio Garrastazu Médici. Começaria, aí, paradoxalmente, o período mais sangrento da história do regime militar e do “Brasil: ame-o ou deixe-o”. O jornalista Millor Fernandes, sarcástico, respondeu em sua coluna, O último a sair apaga a luz do aeroporto.

Sergio Agra é escritor e advogado radicado em Capao da Canoa – RS, desde 2005. Uma honra ter um novo amigo enriquecendo nosso blog.

Como a minha avó

Texto originalmente publicado no blog Mílton Jung

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Não canso de me encantar com a magia da vida. A todo instante, a cada sensação, experiência, presença, ausência, a cada tudo e a cada nada. Encantamento. Impossível convencer alguém de que vida é magia, ou de qualquer outra coisa. Convencimento é coisa íntima, que se faz a sós, cada um a seu modo. E que sempre é diferente. Novidade. Nova idade interior. É um movimento surpreendente, que alinha fatos, organiza dados e, plim, acontece. Imagino uma vitamina de vivências levadas ao processador interno, acionado pela coragem e perfeitamente ajustado ao nosso mecanismo perfeito, que clica quando é hora e pronto.

 

Convencimento pede flexibilidade e é flexível. Mostra-se quando os ponteiros se abraçam, quando a busca frenética faz uma pausa para o devido descanso. O ócio criativo, talvez. Então um dia assim de repente, ao anoitecer, ou ao amanhecer, acionado por um abraço, uma despedida amorosa, um sonho, um acidente, uma canção, ou por qualquer coisa vinda de qualquer lugar, a ficha cai. E a gente vai em frente meio bamba no início, mas maravilhada ao longo do caminho. É como andar de bicicleta.

 

Aqui, neste idílio com o Mar, meus processos internos clicam com maior frequência e intensidade. O mar clama e declama para mim. Eu ouço. Ouço tudo mais claramente: as cores das palavras, do silêncio, do quebrar das ondas nas pedras, do espreguiçar da Valentina. Percebo o pulsar da vida, ora aqui, ora ali. Nas minhas preces peço coragem para continuar mudando, conquistando e me desapegando. Para aproveitar mais uma entre tantas oportunidades que a vida me oferece de recomeçar todo dia com alegria, gratidão, gratidão, gratidão e muita garra.

 

Como acredito que o pensamento pode ser amigo ou inimigo, tenho exercitado a escolha de cada um, como fazia a minha avó Grazia com os grãos de feijão.

 

E você, como sente a vida?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Solidariedade.

Por Maryur Tedesco Silber

Solidariedade

Solidariedade! No meu texto “Palavras com S” quem sabe um seguidor atento sentiu falta da palavra Solidariedade. Não esqueci não, foi intencional. Pois o tema é vasto, vastíssimo e em algumas situações tem que ser repensado, revivido. Solidariedade é necessidade, é execução, é atitude de vida, é virtude essencial. Não é simplesmente doar, é doar-se. É ouvir, entender, abraçar, estender a mão. É “fazer o bem sem olhar a quem”, é dar de si: -Seu tempo, seu ombro, sua voz, seu conselho e podendo: doar o material, que é necessário, mas nem sempre mais importante do que o minuto dedicado a ouvir, entender, acariciar e consolar.

O homem tem sede e fome de afeto, de tempo, de entendimento, e esquece sua enorme carência no turbilhão do cotidiano. Dar uma esmola, um prato de comida talvez seja mais fácil do que ouvir, responder, aceitar o outro com suas diferenças e necessidades.

Cada vez mais precisamos exercitar a compreensão e a tolerância como formas de praticar a solidariedade e graças à convicção pessoal de muitos, a fé religiosa de outros, hoje, embora toda carência mencionada, vemos grandes exemplos individuais e coletivos de seu exercício.  No respeito à ecologia e ao planeta, na doação material aos desvalidos, na ajuda aos deficientes, na aceitação dos diferentes, percebemos ações solidárias que podem ser exemplo para o crescimento de um comportamento individual e social mais engajado.

E com cada um pensando maior e fazendo mais conseguiremos, passo a passo, construir uma grande rede, sem distinção de raça, credo e cor, de Amor e Solidariedade.

Maryur Tedesco Silber é colorada, pedagoga, terapeuta Reiki e Floral, e hoje curte as amenidades familiares, afetivas e culturais. Aos sabados abre seu coração no blog da Maria Lucia Solla

De Mistérios Lexigramados e Soletrados IV

Por Maria Lucia Solla

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Eduardo Campos

 

E lá vou eu mais uma vez Lexigramar o nome de um pré-candidatos à Presidência do Brasil. Para quem ainda não conhece, Lexigrama é uma ferramenta que oferece a possibilidade de desvendar mistérios de um nome pela lente de suas letras.

 

Rapidamente na primeira meia hora de trabalho, encontro frases inteiras que pulam escandalosamente para chamarem minha atenção. Aqui vai um interessante possível recado do senhor Eduardo Campos, ditado por seu nome.

 

Caros compadres e caras comadres, eu sou Eduardo Campos, marcado por carma para mudar a roda do poder e curar a seca do Ceará com pedra e suor, mas sem dor e sem medo.

 

Sou marcado com o dedo de Deus e de S. Amaro, e acordo cedo para dar sopa, roupas, cama e morada aos da rua, e a cada um o seu pão.

 

Encontrei também a frase: Pode ser mau, mas perdoa, e a palavra mãe,  que dá um toque de ternura, qualidade em falta hoje em dia.

 

Da prateleira de palavras picantes tem c# e tem m€%da, mas até canja de galinha precisa de tempero.

 

Nome auspicioso, revela que ele domará as podas das mudas. Quem sabe ele arregaça as mangas e começa a atender ao clamor da Natureza, a impulsionar ações de sustentabilidade e a combater o desmatamento ilegal, que ele não tem no nome.

 

Tem céu e mar, tem pé e mão, tem seu e meu, e mais: Domo o poder com pau e pedra, e seco a dor do medo. Com esses indícios todos ele pode muito bem  domar a violência e aumentar a segurança, debelando-lhes a causa e mudando seu efeito de mãos dadas com Deus.

 

Encontrei capa e espada, uma pitada lendária de herói, mas paro agora por aqui. Se quiser encontrar mais mistérios, aqui vão algumas palavras que encontrei na primeira análise.

 

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acua,  acuado, acuar, acusa,  acusado,  acusar,  ama,  amado, amar,  amaro, amou,  apurado, arame,  cama,  capa,  cara,  carma,  caro,  caros,  carpa,  caspa,  céu,  com,  coma,  come,  comer,  como, comprado,  compras,  copa,  copo, couro,  crê,  credo,  cru,  crua,  cume,  da,  dar,  de,  dedo,  deus,  do,  doar,  doer. dor,  dores,  dorme, dosar,  dose,  dourado durma,  dura,  duro,  ema,  empada,  ermo,  espada, eu, macedo, mãe,  marca, marcado,  marco,   marcos,  mascador,  moço,  moda,  modos,  mora,  morada,  morde,  mosca,  mouro,  muda,  mudar,  mudos,  muro,  ora,  ore,  oremos,  ouro,  parado,  pardo,  pasmo,  pesca,  pescador,  pesco,  pescou,  ,  pescar,  prada,  ,  prado,  pudor,  pudores,  razão,  recado,  rema,  remar,  roma,  romeu, roupa,  rua,  sarado,  saudade,  ,  seca,  secador,  secar,  seda,  sedado,  soa,  soda,  sopa,  sem,  som,  soma,  somar,  sou,  suado,  suco,  suor,  surdo…

Concerto Andaluz – III

Por Sergio Agra

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Andante espressivo – III

 

Duas semanas após a conversação entre aluno e professora, durante o período inteiro da aula, Hermes mal desviara os olhos do caderno de apontamentos, mesmo quando Angélica Elisa propusera à classe para que discutissem sobre o tema daquele dia. A professora percebera o constrangimento do aluno. Fora sábia a decisão de não chamá-lo ao debate. Findo o período, ela pediu a Andréia e Hermes que a ajudassem a transportar o material utilizado em aula até a sala dos professores. Após fechar o armário, agradeceu aos dois alunos a gentileza. Hermes estava preste a alcançar o corredor quando a voz de Angélica Elisa soou-lhe aos ouvidos, como águas de um oásis que saciam a sede do andarilho, Guardei os poemas que transcreveste. Eles são belos! Hermes custou a crer no que ouvia, Guardou mesmo? A professora afastou qualquer sombra de dúvida, Sim, não acreditas? O rapaz ainda demonstrava incredulidade, Você gostou? A confirmação de mestra não deixava margens para receios, Na verdade, eu não conhecia aqueles sonetos… Hermes transformara-se num outro homem, como se ele próprio se transfigurasse no antes sedento andarilho agora revivido pelo frescor da fonte que até então se mostrara distante. Animado, contou-lhe de onde copiara os versos. Angélica Elisa estava extremamente receptiva, Gostaria de algum dia ler essa brochura. Havia uma flama na voz do aluno, Eu lhe emprestarei. Mesmo? Agora é você que não está acreditando? Riram. E, por isso, o clima adquiriu outras nuances. Ela atreveu-se a perguntar, E quanto ao resto… Também é verdade? A pergunta apanhou Hermes com as defesas abertas. Assim mesmo, após um longo silêncio, ele a mirou nos olhos e, com firmeza, confirmou, Sim, é toda a minha verdade!

Mesmo sabendo de que os sentimentos de Hermes resultavam do fogo da paixão ou, quando muito, a exemplo do Quixote, de um sentimento apenas idealizado, foi com convicção que ela confessou, Não imaginas como me faz bem ouvir isso de ti. Angélica Elisa abria as comportas de seu coração, É como se há muito tempo eu simplesmente não existisse. E, de repente, alguém me diz que não apenas estou viva como sou desejada. O rapaz, como se inspirados por magos benfazejos, mostrava uma nova postura, mais madura, E seu marido?

 

O colombiano Hector Biscarra viera adolescente para Porto Alegre. Jovem, ainda, estabelecera-se com uma casa noturna no bairro Cidade Baixa. Amante de socialite que, a exemplo do que a mulher já fizera com o marido, plantou em Biscarra um par de cornos. Ao saber-se traído, ele deu vazão à fúria, disparando a arma sobre o suspeito concorrente, um vereador das hostes arenistas. O camarista, sem qualquer alarde, abandonou o mandato e a cidade. Ambicioso, o colombiano, alargou de seus negócios: uma obscura representação de “mercadorias” importadas. Angélica Elisa, por estranhos descaminhos, quatro meses após conhecer Biscarra, casara-se com o estrangeiro. Nunca soubera, nesse tempo todo, de quem realmente se tratava o companheiro.

Angélica Elisa, sem fixar o olhar em algum ponto definido, abrira o cofre da obscura vida do marido, Hector, para mim, é uma incógnita. Suas mãos tremiam, assim mesmo, confessou, Ele lida com gente “barra-pesada”; vive viajando. Havia um quê de admiração, Deve ter lá os seus riscos, mas, que paradoxo, eu a acho extremamente excitante. Cerrou as pálpebras, conformada, Bem ao contrário da minha, estagnada, como um jardim estéril… Hermes lembrou-se do verso, …Una voz sin garganta, voz oscura/ que suena en todo sin sonar en nada?… Angélica Elisa o presenteou com um tímido sorriso, Lorca? Hermes moveu a cabeça em sinal afirmativo. Com o mesmo melancólico sorriso que se lhe estampava Angélica Elisa concluiu, De hoje em diante, guardemos Lorca somente para nós.

Dali para diante, ela passou a sublimar, junto a Hermes, o lado suave e romântico da fêmea que jamais fora com o marido. O ardor da paixão do aluno pela professora custaria um preço alto ao rapaz.

E muito mais para Angélica Elisa…

Sergio Agra é escritor e advogado radicado em Capao da Canoa – RS, desde 2005. Uma honra ter um novo amigo enriquecendo nosso blog.

Palavras com S.

Por Maryur Tedesco Silber

Texto originalmente publicado no FaceBookSimplicidade

 

Sensibilidade, Serenidade, Simplicidade, Sinceridade, Suavidade.

Apenas cinco palavras me ocorreram quase do nada e me fizeram refletir quão poderosas são! Como as atitudes pautadas por elas podem ser definitivas e quem sabe? Capazes de nos tornar melhores e mais felizes. Não são simples palavras, pois representam valores, posturas,”modus vivendi.”  E, frequentemente, esquecemos de exercê-las no dia a dia.

No corre-corre do trem da vida vamos perdendo a Sensibilidade, pela pressa, pela necessidade de sermos fortes, competitivos, bem sucedidos e em conseqüência, a Serenidade se transforma em agitação, na ânsia de fazer mais, melhor e rapidamente.

Sem notar abandonamos a Simplicidade de encontrar alegria nas pequenas coisas, nos pequenos gestos: no sol que brilha, na chuva que cai, no filme bem feito, no bolo gostoso, no telefonema carinhoso da amiga, no beijo do amado… Imaginamos que é preciso mais, sempre mais…E corremos atrás, para que? Por que? Porque precisamos ser sempre maiores e melhores.

Muitas vezes na busca de objetivos e metas esquecemos a Sinceridade, sem querer ou mesmo por conveniência, por desculpa, vamos tecendo um emaranhado de ”mentiras sociais”, que não comprometem, não lesam, mas deixam aquele gosto amargo de não é bem assim.

Vamos aos poucos perdendo a Suavidade, confundida com fragilidade. Não podemos ser frágeis sob o risco de perder a vez e a “batalha”. Nos tornamos rígidos, pensando que somos firmes; duros, pensando que somos fortes.

E apenas retomando o exercício destas cinco palavras, transformando-as em atitudes poderemos ser mais tranqüilos e felizes! Vamos tentar?

Maryur Tedesco Silber é colorada, pedagoga, terapeuta Reiki e Floral, e hoje curte as amenidades familiares, afetivas e culturais. Aos sabados abre seu coração no blog da Maria Lucia Solla